pietro mangiadore

pietro mangiadore

gosto de livros que se comunicam com a vida de outros livros, com a vida de outros livros, com a vida...
  • "paradise", XII, brasil
  • member since Wednesday, January 24 2007

Reviews

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  • The History of the Siege of Lisbon
    • Rated 0 stars

    O autor mostra toda sua habilidade e gênio ao construir todo um romance a partir de um detalhe surpreendente.

    pietro mangiadore wrote this review Tuesday, September 25 2007. ( reply | permalink )
  • Blindness (Harvest Book)
    • Rated 0 stars

    A maneira de narrar de saramago, em círculos de ênfases, com intromissões e recados aos personagens, é muito envolvente. o leitor sempre cúmplice, qualquer seja a tragédia e o desconforto dos personagens.

    pietro mangiadore wrote this review Friday, August 24 2007. ( reply | permalink )
  • A Cook's Tour
    • Rated 5 stars

    RECEITAS HEDONISTAS DO CHEF BEAT Os bares de Parati já estão com suas coqueteleiras brilhando. Está para desembarcar na cidade o irreverente chef norte-americano Anthony Bourdain, que comanda o restaurante Les Halles, de Nova York. Considerado um enfant terrible das caçarolas, é comparado, pela prosa vertiginosa e rebeldia escancarada, a escritores da Geração Beat. Trata-se de um Jack Kerouac com o Larousse Gastronomique na mão, resume a crítica Nina Horta. Da última vez que esteve no Brasil, para um evento gastronômico, Bourdain e seu colega Todd English, dono de quase duas dezenas de restaurantes nos Estados Unidos, consumiram, numa só manhã no litoral norte paulista, 28 caipirinhas. Também aprovaram os pratos "revolucionários" do restaurante Manacá, em Camburi, como o tropical camarão com caju e raspas de coco, segundo uma revista de celebridades.[br/][br/]Desta vez, o visitante é mais o Bourdain escritor. Convidado da Festa Literária Internacional de Parati (Flip), o chef é destaque do menu do domingo 10 de julho, com a palestra "O sabor das letras". Anthony Bourdain já escreveu três romances (Bone in the Throat, Gone Bamboo e Typhoid Mary), mas são seus livros sobre as entranhas das cozinhas, os dramas de seus profissionais e aquele no qual relata uma viagem pelo mundo em busca dos "pratos perfeitos", que fizeram seu sucesso. As verdades cruas dos restaurantes foram reveladas em Cozinha Confidencial , editado no Brasil pela Companhia das Letras.[br/][br/]Bourdain causou constrangimento a seus pares ao mostrar detalhes do cronograma de compras dos restaurantes novaiorquinos, não deixando dúvidas sobre a falta de frescor do peixe servido às segundas-feiras. "Os pecados da cozinha se cobrem com molhos", resume o chef. Os relatos também provocaram certo desconforto ao revelar as mazelas dos imigrantes, muitos ilegais, que integram as equipes de cozinha, protagonistas de farras alcoólicas, embalos com drogas e sexo. Ainda assim, o texto não deixa de ser uma declaração de amor à profissão, mesmo que às avessas.[br/][br/]Depois de anos confinado ao fogão, Bourdain começou a ficar cansado desse cardápio. "Não quero mais me ver aos 45,46, despejando brunches em cafés do West Village até meus joelhos sumirem e meu cérebro virar uma massa disforme", exagerava o chefe. Foi quando embarcou contra a corrente da cozinha-só-espetáculo e decidiu viajar pelo mundo, à procura dos pratos perfeitos, com alma. No roteiro, Portugal, Vietnã, Camboja, Rússia, México, Marrocos, França, Japão, Escócia,Espanha... Na bagagem, um recado da mulher, Nancy: "se eu souber que você andou provando miolos de macaquinhos simpáticos e ainda vivos, é o divórcio!" Nas restrições de Nancy, nenhuma menção à sopa chinesa preparada com ninhos de andorinha. [br/][br/]Bourdain é um chef hedonista, qualidade cultivada desde quando usava calça curta. Das ostras o menino fazia poesia: prato pronto da natureza, com molho e tudo. Numa viagem de férias com a família a bordo do Queen Mary, para a França, deparou-se com uma sopa absolutamente fria. A hegemonia das sopas Campbell's começava a desmoronar diante de uma tradicional Vichyssoise. "Lembro-me de tudo sobre essa experiência: a forma como nosso garçom tirou-a de uma terrina de prata com uma concha, o frescor das cebolinhas verdes francesas que ele colocou por cima para guarnecer, o gosto cremoso e forte do alho-poró..." Bourdain chega a falar de sabores realçados pelo brilho do olhar de quem compartilha uma refeição. Explica também que, para que a "mágica aconteça à mesa", é preciso muito mais que técnica e ingredientes raros. E defende o aprendizado das alquimias cultivadas pelas diversas culturas. A apologia desse "terroir" cultural não deixa de ser um elogio a Brillat-Savarin, um dos primeiros a estabelecer relações entre prazeres e saciedade, em 1825. (veja texto ao lado).[br/][br/]Portugal, a terra de José, dono do The Halles, foi a primeira parada de Bourdain. Foi recebido pela mãe do patrão com um porco já cevado. Era a primeira vez que teve de olhar para os olhos da sua vítima. "Em toda a minha carreira, fui como Corleone em O Poderoso Chefão II, ordenando assassinatos por telefone", brinca o chef-escritor no seu Em Busca do Prato Perfeito (Um Cozinheiro em Viagem). Ficou impressionado com o violento ritual da morte do animal, sinalizada com fogos de artifício. Aprendeu lições sobre o aproveitamento quase total do bicho (exceção feita à bexiga, que, cheia, acaba virando bola de futebol das crianças). Mas divertiu-se mesmo ao conviver com toda a família de José, numa imensa mesa, para saborear uma sucessão quase infinita de pratos. Uma prática muito distante das famílias de classe média nos EUA. Num dos jantares: rojões de batatas e sarrabulho, uma sopa "incrível" de pão, caldo, cominho fresco, carne de porco e sangue, que tinha sido cozido em fogo baixo por muito tempo, até formar uma massa gelatinosa, misturada depois à sopa.[br/][br/]À França, Bourdain foi com o irmão. Encontraram a mesma boulangerie da infância, fisgados pelo aroma do pain raisin, os pãezinhos com passas. No Vietnã, em Ho Chi Minh, depois dos ninhos de macarrão e arroz e da carne envolta em folhas de menta, a surpresa do digestivo, servido numa grande jarra cheia de cobras. Bourdain teve de enfrentar iguanas mexicanas, mas o beat domado não achou ruim de estar com o chef Juan Mari Arzak, em território basco, que transformou seu restaurante em ponto de peregrinação para goumerts de toda a Europa. A entrada foi ravióli de abóbora em molho de tinta de lula, em infusão de pimentão vermelho. Depois, pequenos canapés com purê de lingüiça basca e mel. Para terminar, "um diminuto pratinho de iogurte de leite de cabra com foie gras, quase obsceno de tão bom". "Gosto dos Arzak porque mantêm a tradição e não se metem em extravagâncias sem sentido."[br/] [br/]Resenha escrita por mim para o Diário do Comércio de 13/6/2005

    pietro mangiadore wrote this review Tuesday, July 10 2007. ( reply | permalink )
  • Cod: A Biography of the Fish That Changed the World
    • Rated 4 stars

    Do Báltico para o mar verde de azeite das caçarolas

    Um bacalhau embarcado hoje na Noruega leva até três semanas para chegar ao Brasil e, assim, trocar as águas do Báltico e do Atlântico pelo mar verde de azeite das caçarolas. Muito menos tempo do que seus ancestrais, também secos e salgados, levavam para aportar aqui no século 16, época das grandes navegações. O papel do bacalhau nas aventuras que expandiram os limites do globo e do paladar é desfiado na "biografia autorizada" Bacalhau, o peixe que mudou a história do mundo (Editora Nova Fronteira), escrita por Mark Kurlansky, um pesquisador minucioso da história e da sociologia da alimentação.

    Aportar em terras novas não é bem o caso já que o bacalhau dos Descobrimentos era quase sempre carga de sobrevivência, 80% proteína, iguaria não perecível devorada nas embarcações que deixavam o Velho Mundo e cortavam mares "nunca d'antes navegados".

    O bacalhau entrou na lista oficial de provisões da Marinha Real portuguesa com uma penada de D. João II (1455-1495), ironicamente o rei que não gostava de peixe. O monarca apostou na salubridade dos exemplares enviados por portugueses desbravadores da Terra Nova, então um dos principais pontos de pesca do bacalhau. A Terra Nova de Gaspar Côrte Real era a mesma Newfoundland do italiano anglicanizado John Cabot, hoje território canadense. Os franceses também tinham os pés nos pródigos mares do Hemisfério Norte. Todos reivindicavam o título de descobridores do santuário. Os bascos sempre zanzaram por lá. Havia o mesmo "entusiasmo de uma corrida do ouro", conta Kurlansky. Euforia alimentada pelo crescimento do mercado: "lá pela metade do século 16, 60% de todo peixe consumido na Europa era bacalhau, porcentagem se manteve estável por mais duzentos anos".

    Os diários de bordo das expedições de Cabral e Vasco da Gama não relatam como a proteína do mar chegava às tripulações famintas, antes que estas fossem consumidas pelo escorbuto e outras doenças que dizimavam as naus portuguesas. É bem provável que as postas carnudas, desmanchando-se em lascas, ficassem com os comandantes e apaniguados. As "espinhentas sobras" alimentariam os porões. "O fado não canta a saudade e sim a posta perdida", resume Paiva de Carvalho, da Academia do Bacalhau de Toronto.

    Vikings - Primeiro foram os vikings, que ocuparam a Islândia e a Groenlândia, entre os anos 800 e 1200. Antes de zarparem com seus velozes barcos de duas velas, avançando das terras geladas para a Europa, matando monges e freiras na Inglaterra, barbarizando e negociando rumo ao Sul, os vikings já falavam dos peixes que ferviam em seus recortados fiordes e conheciam a técnica de secá-los. Fileiras e fileiras de bacalhau de "peito aberto" eram expostas ao vento frio nos degraus rochosos da sua costa. Cada peixe perdia cerca de quatro quintos de seu peso e transformava-se numa peça dura como tábua, cortada em pequenos pedaços, como biscoitos. E com nutrientes capazes de sustentar as diabruras de Eirik, o Vermelho.

    Até hoje a cidadezinha portuária de Lofoten, na Noruega, com seu colorido casario art nouveau, é cenário dessa rotina. Numa única temporada (fevereiro a maio), a indústria de Lofoten pendura em seus "varais" para secar 16 mil toneladas do bacalhau mais nobre, o Gadus morhua(veja ao lado). No total, cerca de 50 mil toneladas de bacalhau saem das águas da região.

    Bascos - Depois dos vikings, os bascos. Eles tinham sal em abundância, mercadoria então impensável para os nórdicos, e começaram a usá-lo no processamento do bacalhau. O sal aumentava a durabilidade do alimento. Além de bravos pescadores, os bascos eram bons comerciantes. No raiar do século 11, já tinham tradição da pesca à baleia e da venda de seus produtos. O bacalhau os ajudava a enfrentar as durezas das perseguições aos cetáceos gigantes, arpões de prontidão, como os célebres personagens de Moby Dick, de Herman Melville (1819-1891). A ligação desse povo com o mar é exagerada na história de pescador que corre por lá: o bacalhau possuiria o dom da fala. E falaria basco...

    "Os bascos ficavam mais ricos a cada sexta-feira", escreve Kurlansky, referindo-se aos dias de jejum determinados pela Igreja Católica. Além dos 40 dias da Quaresma e da Semana Santa, havia vários outros períodos de abstinência de carne vermelha, totalizando quase a metade dos dias do ano. Carnes de bacalhau e de baleia eram enquadradas como carnes frias, vinham da água, e estavam liberadas. O bacalhau tornou-se "um soldado mitológico na cruzada pela observância cristã", analisa Kurlansky.

    A grande procura pelo bacalhau acirrou a disputa entre os países pesqueiros e não foi nada fácil estabelecer limites e territórios. Três guerras do bacalhau eclodiram e tumultuaram os negócios. Nenhum tiro foi disparado, não houve baixas, a não ser a destruição de muitas redes consideradas "devastadoras" de uma e de outra frota.

    Com o tempo, a pesca deixou de ser aventura de homens dispostos a enfrentar "latitudes solitárias", em áreas literalmente congeladas e eternamente enevoadas. Tornou-se prática predatória com redes e dragas, bem distante das tradicionais linhadas com muitos anzóis. Para desespero dos homens que ganhavam a vida no mar, a pesca passou a ser controlada. Os preços do produto dispararam.

    A queda dos estoques levou o Canadá, em julho de 1992, a proibir a pesca em áreas da Terra Nova. Os únicos "pescadores" autorizados integram o projeto Sentinel Fishery. Zarpam para monitorar "estoques" e acompanhar o desenvolvimento de filhotes. Todos à espera da volta dos generosos cardumes.



    Gadus morhua morhua

    7O príncipe dos Mares do Norte atende pelo nome científico de Gadus morhua. Assim foi registrado no Systema Naturae do sueco Lineu , em 1758. É o mais cobiçado da família. Assim como seus algozes, é dado a aventuras e, na época da desova, migra pelas águas acompanhando correntes menos frias. Seus parentes estão também nos mares da Noruega, Rússia, Islândia, Canadá e Alasca.

    Corpo robusto, olhos pequenos, "barbicha" no extremo da mandíbula inferior, 5 aletas, cauda reta, o bacalhau da Terra Nova tem manchas cor de âmbar no dorso verde oliva e a barriga branca. Um exemplar de 20 anos mede, em média, um metro, e chega a pesar 50 quilos.

    Quando fisgado, não costuma reagir. Dizem que esse comportamento desestressado está relacionado à carne branca tão apreciada. Quando o assunto é comida, é predador voraz, ataca até anzóis sem iscas e nem filhotes desavisados escapam. A fêmea põe até 8 milhões de ovos. O escritor Alexandre Dumas criou uma imagem poética para essa fertilidade: "se nenhum acidente atrapalhasse a maturação dos ovos e todos conseguissem transformar-se em peixes, demoraria apenas três anos para que o mar ficasse coalhado de bacalhaus de modo que poderíamos atravessar o Atlântico sem molhar os pés, caminhando sobre eles". Fora da ficção, só 6 vingam e 2 chegam à idade adulta. (JGF)

    Bochechas fritas

    Auguste Escoffier (1846-1935), pai da moderna cozinha francesa, tinha Portugal em alta conta, por ter o país garantido lugar de destaque ao bacalhau na cena gastronômica. Taillevent, cozinheiro do rei Carlos V, da França, servia o bacalhau com molho de mostarda ou manteiga derretida. Apesar de não ter o bacalhau em suas águas, os portugueses iam longe para trazer o peixe até a cidade do Porto e, de lá, para Lisboa e o mundo. Há tantos pratos preparados com a iguaria em Portugal que é possível comer um bacalhau diferente a cada um dos 365 dias do ano.

    Na Idade Média, graças à abundância do pescado e o preço não tão salgado, o bacalhau freqüentava a mesa da nobreza e dos pobres. Enriquecia panelões de arroz para numerosas famílias caribenhas. Ou reinava quase sozinho, só o nobre lomo, em receitas que os espanhóis batizaram de bacalao a la vizcaína ou o al pil pil, com pimenta.

    Do bacalhau se come tudo, até os ossos. Na Islândia, as espinhas ficam de molho em agraço (suco de uvas verdes), são posteriormente cozidas e viram mingau. Em outras épocas, as crianças das terras gélidas comiam também as peles fritas com manteiga. Enquanto outras, mundo afora, tiveram de beber na marra o fortificante óleo de fígado de bacalhau.

    Em 1571, Elizabeth da Áustria foi recepcionada em Paris com banquete que incluía tripas do peixe. Os bons de garfo lambem os beiços é com as línguas cozidas, na verdade as gargantas do bicho. "Têm sabor mais forte e uma textura mais gelatinosa", ensina Kurlansky. Na lista de históricas receitas, o autor destaca as bochechas fritas (discos carnudos que vêm com a mandíbula), as ovas (quase sempre recheadas), além das bexigas natatórias e cabeças de bacalhau assadas. Sim, bacalhaus têm cabeça. E são disputadas.

    Textos publicados no Diário do Comércio de 4/4/2006

    pietro mangiadore wrote this review Tuesday, June 19 2007. ( reply | permalink )
    • Rated 5 stars

    TRÓIA
    dos sonoros versos

    Quer conhecer a Tróia de Homero? Melhor é percorrer a Ilíada ou contemplar uma coleção de vasos gregos. Nada de aventuras em Hissarlik, reprovada até pelo Guide Blue da Turquia. O conselho bem-humorado é do renomado historiador Pierre Vidal Naquet, da École des Hautes Etudes en Sciences Sociales de Paris, e está no seu livro "O Mundo de Homero". Ele mesmo decreta: "O mundo homérico é um mundo poético".

    Épicas fundadoras da literatura ocidental (o poeta trágico Ésquilo dizia, no século V a.C. que não fazia nada mais do que catar migalhas do festim de Homero), a Ilíada e a Odisséia mantêm até hoje seu vigor porque tratam com competência poética dos dramas que não são gregos ou troianos, mas universais e de todas as épocas. Ira, inveja, ciúme, orgulho, arrogância, mentira movem a trama de guerreiros, deuses e semi-deuses, nos momentos decisivos da Guerra de Tróia e na viagem conturbada de retorno de Ulisses a Ítaca.

    Para os leitores do português, essa viagem via Ilíada e Odisséia , num caminho de nada menos do que 26 mil versos, tem tudo para ser das mais prazerosas. O Brasil tem tradição no culto a Homero. As traduções do maranhense Manuel Odorico Mendes (1799-1864), um romântico fora da rota, serviram de estímulo para as propostas mais radicais do texto homérico, empreendidas durante várias décadas pelo poeta de vanguarda e ensaísta Haroldo de Campos (1929-2003). O próprio Haroldo, um "transcriador", não subestimava a empreitada de Carlos Alberto Nunes, que na década de 50 preparou versões mais tradicionais das epopéias, editadas pela Ediouro.

    Odorico encontrou soluções nada ortodoxas para a tradução do texto grego. Para rododáktylos, o epíteto de Aurora, usou um certeiro dedirósea (de dedos róseos). Fluctissonantes praias garantiram sonoridade ao vaivém do mar. A Odisséiade Odorico, editada pela Edusp sob a coordenação do professor Antonio Medina Rodrigues, é uma daquelas edições que já tornaram clássicas.

    Os epípetos usados na abertura da reportagem da página anterior ("Tróia de carne e osso") bem como trechos de cânticos ao lado foram extraídos da Ilíada de Haroldo. Nos últimos anos de vida, com sérios problemas de saúde, Haroldo adotou a "homeroterapia" como forma de manter a mente acessa. Cercado de livros, dicionários, traduções clássicas e canetas de várias cores, o poeta conseguiu completar seu requintado e heróico trabalho de tradução, editados pela Arx, em dois volumes bilíngues. "A natureza solar e exuberante de Haroldo de Campos cai como uma luva no universo fosfórico da épica homérica", anotou o professor Trajano Viera, na introdução de "Os nomes e os Navios". O poeta criou soluções que respeitaram a sonoridade do texto original grego, que, antes de escrito, nasceu para ser cantado por aedos como Homero. Ou Homeros.

    Texto assinado por mim no Diário do Comércio, edição de 12/5/2004

    pietro mangiadore wrote this review Wednesday, January 31 2007. ( reply | permalink )
  • El Capitan Alatriste
    • Rated 4 stars

    Alatriste é personagem central da novela que leva seu nome (O Capitão Alatriste, Companhia das Letras, 2006), do premiado escritor espanhol Arturo Pérez-Reverte.

    Um romance entre picaresco e histórico sobre o tempo em que, fora dos palácios, "a capital das Espanhas era um lugar onde se ganhava a vida aos solavancos, pelas esquinas, entre o brilho de dois aços". Alatriste equilibra-se no fio da navalha.

    É o eterno soldado, combatente das campanhas contra os holandeses e todos os inimigos da Espanha. Mas é também um espadachim de aluguel, pronto a espetar qualquer um em nome da sobrevivência (e da honra manchada de terceiros). Sabe se divertir na Taverna do Turco, esvaziando garrafas do vinho de San Martín de Valdeiglesias. Participa de empolgantes tertúlias comandadas pelo poeta "manquitola e valentão" dom Francisco de Quevedo (que adora espinafrar o adversário Luis de Góngora).

    Capitão Alatriste está também na platéia do teatro de Lope de Vega, que tanto agradava o "rei nosso senhor dom Filipe IV". E esfrega-se sempre que pode na dona do quarto que aluga, Caridad la Lebrijana. Mas saiam mesmo da frente quando desembainha a espada e parte para o campo de batalha.

    Esse caráter controvertido, nem bandido nem mocinho, extremamente taciturno e melancólico, arrebatou os leitores espanhóis. Estes praticamente imploraram a continuidade da primeira história, que acabou originando uma série – um dos grandes êxitos editoriais recentes do país.

    Depois do volume inicial, O Capitão Alatriste, lançado em 1996, mas que acaba de ser traduzido no Brasil, o personagem conduz outras quatro histórias de igual sucesso: Limpieza de Sangre (97), El Sol de Breda (98), El Oro del Rey (2.000) e o mais recente El Caballero de Jubón Amarillo (2003). Além disso, o capitão estará nas telas dos cinemas europeus em setembro, numa superprodução histórica assinada por Agustín Díaz Yanes.

    Na primeira narrativa, Alatriste é contratado por mascarados para emboscar e dar fim (ou um susto) em dois viajantes anônimos que chegavam a Madri. O capitão acaba mudando os planos durante a investida, como que "chamado" pela moral de soldado: comoveu-se ao ouvir o pedido de clemência de um dos viajantes, não para si próprio, mas para o seu companheiro mais frágil de jornada. O ataque aos jovens, os dois ingleses (e não se revelam aqui as identidades para que o suspense seja preservado), é a parte visível de um cenário diplomático difícil, principalmente para uma Espanha que tratava como herege toda nação que não confessasse seu credo. Os ingleses não passavam de "ímpios anglicanos". E não tinha importância se um desses ingleses arrastava todas as castanholas por uma infanta.

    Quem narra a história é Íñigo Balboa Aguirre, órfão de um soldado como Alatriste, pajem do capitão, que com ele sobrevive num cubículo da taverna de Caridad. Ele garante emoção filial à história ao comportar-se como um herdeiro legítimo das aventuras do capitão.

    Não poderia ficar de fora da história de Pérez-Reverte, o grande Diego Velázquez, feito pintor da Corte pelas mãos do "rei nosso senhor Dom Filipe IV", o monarca avesso aos negócios de Estado, mas que teve seu nome ligado ao mecenato que deu vida aos pintores do Século de Ouro espanhol.

    Pérez-Reverte, membro da Real Academia Española desde 2003, jornalista e correspondente de Guerra durante 21 anos, vive hoje de literatura. O Mestre de esgrima, outro de seus romances traduzidos por aqui de maneira competente por Eduardo Brandão (Companhia das Letras, 2003), mostra mais um recorte da história da Espanha, o turbulento período da rainha Dona Isabel II (1833-1868). Todas as atribulações – incluindo os complôs para a derrubada dos Bourbon – são pontuadas pelo florete de Jaime Astarloa, professor sexagenário de esgrima, mestre-de-armas formado em Paris, mas acima de tudo cidadão para quem toda "pistola é uma impertinência". E a "arma branca tem uma ética que falta às outras..." Touché!


    Resenha publicada assinada por mim no Diário do Comércio 10/3/2006

    pietro mangiadore wrote this review Tuesday, January 30 2007. ( reply | permalink )


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